Um levantamento inédito conduzido pela primeira agência de verificação de fatos do país revelou que 87,3% dos conteúdos virais sobre saúde analisados ao longo de vários anos eram falsos. O estudo “Raio-X da Desinformação em Saúde”, desenvolvido com o apoio de um grande grupo de ensino médico, examinou uma amostra de 764 publicações entre março de 2017 e junho deste ano, constatando que 667 materiais continham informações inverídicas.
O documento aponta uma média de aproximadamente 72 falsidades virais disseminadas anualmente, o que representa cerca de seis casos por mês. O conceito de conteúdo viral engloba materiais que ganham tração velozmente na rede, alcançando audiências massivas e acumulando altos índices de engajamento, como visualizações, curtidas e compartilhamentos em ritmo acelerado.
Explosão durante a crise sanitária O volume de material inverídico disparou durante o período da crise sanitária global. Entre 2020 e 2021, a entidade verificou um volume cerca de dez vezes maior de publicações sobre saúde em comparação aos três anos anteriores, totalizando 452 conteúdos virais. A propagação dessas mentiras ocorreu frequentemente por meio de táticas específicas, como a utilização de falsas autoridades para prometer curas milagrosas e soluções simplistas para mazelas complexas. A pesquisa destaca que, embora esse padrão já existisse antes do surgimento da covid-19, ele ganhou escala expressiva posteriormente.
“Um dos maiores desafios da desinformação em saúde é que ela se apropria da linguagem e da autoridade de médicos, pesquisadores e instituições para parecer legítima”, afirma a fundadora da Agência Lupa, Cristina Tardáguila.
Táticas de manipulação e perfis mais visados A estratégia de simular falsa autoridade médica ou científica esteve presente em 21,6% dos casos catalogados. Na sequência, o uso de apelos ao medo e linguagem alarmista motivou 17% das postagens falsas. A distorção de estudos científicos respondeu por 15,7%, enquanto a promessa de soluções simples para questões complexas apareceu em 12,6% das ocorrências mapeadas pelo levantamento.
Diante desse cenário, a atuação profissional passa a exigir novas competências. “Hoje, o profissional de saúde precisa estar preparado não apenas para diagnosticar e tratar, mas também para ajudar o paciente a navegar em um ambiente de excesso de informações, muitas delas sem respaldo científico”, afirma o vice-presidente Médico e de Relações Institucionais da Afya, Gustavo Meirelles.
Ao longo do período avaliado, os temas que mais atraíram checagens envolveram a covid-19, respondendo por 61% dos casos, seguidos por discussões sobre tratamentos, cura e prevenção (34%) e publicações sobre alimentos, bebidas e nutrição (24%).
A desinformação sobre imunização também manteve patamares elevados. Antes da crise sanitária, pautas sobre vacinas representavam 9,1% das checagens da entidade, proporção que saltou para 33,2% durante a emergência e alcançou 38,9% entre 2022 e 2024. Embora tenha recuado para 20% no intervalo mais recente, o volume ainda supera o dobro da média registrada no período pré-pandêmico. Do total de 244 alegações sobre imunizantes analisadas, 86,9% foram classificadas como inverídicas.
Além disso, o estudo identificou a presença de figuras públicas em pelo menos 142 publicações investigadas, incluindo nomes como Jair Bolsonaro, Bill Gates, Drauzio Varella, João Doria e Luiz Inácio Lula da Silva. A entidade ressalta que a citação a esses nomes não implica autoria ou endosso das teses, mas demonstra que terceiros frequentemente utilizam a reputação de personalidades conhecidas para conferir credibilidade a boatos.
Canais de propagação e ressalvas metodológicas No que diz respeito aos meios de difusão, o WhatsApp lidera o ranking das plataformas mais associadas aos registros de desinformação na área médica. Mais de 70% das 498 checagens examinadas entre março de 2017 e junho de 2026 tiveram origem em conteúdos que circularam ou foram localizados no aplicativo de mensagens instantâneas. O Facebook ocupou a segunda posição, com 15,3% dos registros, seguido pelo Instagram, com 7%.
Os pesquisadores ponderam, contudo, que os números não permitem concluir de forma definitiva que o aplicativo de mensagens seja a fonte primária dessas fraudes ou que concentre o maior volume de mentiras da internet. Como a entidade mantém um canal direto de atendimento na plataforma para receber solicitações de checagem, há uma tendência natural de maior identificação de materiais que circulam por esse meio. Ademais, uma mesma postagem costuma transitar por múltiplas redes sociais antes de alcançar o usuário final.
Com informações de Agência Brasil




