Corte de benefícios sociais ameaça economia no interior do país

A eventual interrupção dos ganhos reais ou a redução em pagamentos da Previdência Social e de programas assistenciais coloca em risco o dinamismo financeiro de milhares de municípios brasileiros. Um levantamento produzido pelo Centro de Pesquisa em Macroeconomia das Desigualdades (Made), ligado à Faculdade de Economia e Administração da Universidade de São Paulo (FEA-USP), adverte que a estagnação dessas transferências tem potencial para desencadear um quadro severo de retração comercial e produtiva longe das grandes metrópoles.

De acordo com os pesquisadores, verbas como o Bolsa Família, o Benefício de Prestação Continuada (BPC) e as aposentadorias representam quase a metade dos recursos disponíveis nos lares de menor poder aquisitivo. Como esse montante é rapidamente injetado no consumo diário, ele funciona como sustentáculo para a atividade econômica regional.

“Como o valor recebido por essas famílias é usado quase integralmente para a aquisição de itens de primeira necessidade, o dinheiro circula imediatamente no comércio local, garante empregos e mantém a arrecadação municipal ativa”, destaca a co-diretora do Made-USP, a economista Luiza Nassif.

Dependência financeira no interior dobra em relação às capitais

O território nacional conta com 5.569 municípios, dos quais cerca de 4 mil estão situados fora de regiões metropolitanas. Nessas localidades interioranas, o peso proporcional das transferências públicas federais é o dobro daquele observado nos grandes centros urbanos.

A disparidade fica evidente na comparação regional. No estado do Ceará, os repasses assistenciais e previdenciários compõem 22% de toda a renda registrada em Fortaleza e nos municípios vizinhos. Em contrapartida, nas cidades do interior cearense, essa fatia atinge expressivos 40% da renda agregada.

Projeção indica retração severa na renda regional

Para mensurar os desdobramentos futuros, o estudo traçou cenários para os próximos três anos. Os pesquisadores compararam a política recente de aumento real observada entre 2022 e 2025 com o modelo adotado de 2019 a 2022, marcado por congelamentos e ausência de correção acima da inflação para o salário mínimo.

As conclusões apontam que a falta de reajustes reais reduziria a renda agregada do interior entre 6,8% e 10,8% em relação ao patamar que seria alcançado com a manutenção dos ganhos acima dos índices inflacionários.

“Isso geraria uma reação em cadeia na atividade econômica que atinge inclusive as famílias que não dependem do socorro público”, avalia Nassif.

As projeções mais alarmantes recaem sobre o interior do Rio Grande do Norte, do Amapá e do Piauí, locais onde a receita total despencaria entre 17% e 18%. Em Pernambuco, Sergipe e Amazonas, as perdas ficariam em torno de 15%. Já estados como Bahia, Alagoas, Maranhão e Ceará enfrentariam retrações de 10% a 13%. Nas regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste — abrangendo estados como São Paulo, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul e Mato Grosso —, o prejuízo econômico alcançaria até 6,5%.

Avanço da pobreza extrema e impacto no comércio

Além da circulação de mercadorias e serviços, o suporte financeiro federal atua diretamente como barreira contra a vulnerabilidade social. O levantamento ressalta que, em grupos familiares com renda per capita de até 1,5 salário mínimo, as transferências chegam a compor 50% de todo o orçamento doméstico.

“Para quem vive no limite, qualquer reajuste abaixo da inflação empurra a família diretamente para a pobreza”, afirma Nassif.

Simulações do estudo calculam que, caso o congelamento praticado no ciclo anterior tivesse sido mantido entre 2022 e 2025, aproximadamente 2,7 milhões de cidadãos fora das metrópoles teriam sido empurrados para a linha da pobreza, com 2,4 milhões deles caindo na extrema pobreza. Os maiores contingentes absolutos seriam registrados na Bahia (336 mil pessoas a mais), em São Paulo (263 mil) e em Minas Gerais (251 mil), seguidos por Maranhão, Pará e Ceará, todos superando 200 mil novos desvalidos.

“Olhando para o impacto que a queda de renda provoca, fica nítido o estrago que uma trava no crescimento dos benefícios pode fazer nas economias locais”, observa Nassif.

“Manter a valorização real da previdência, do BPC e dos programas de transferência de renda é a garantia mínima de dignidade para as famílias e de sobrevivência para o comércio local no Brasil profundo”, acrescenta.

Com informações de Agência Brasil

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