Evento em São Paulo oferece vagas e capacitação a refugiados

Com o objetivo de facilitar o acesso de pessoas refugiadas e migrantes ao mercado formal de trabalho, o centro da capital paulista recebeu a ação Conexões que Transformam. Organizado pelo Grupo Mulheres do Brasil, Konecta Brasil e Konecta Foundation, o projeto reuniu 138 participantes de 23 nacionalidades na sede da Aliança Brasil Cidadã, oferecendo encaminhamento para processos seletivos, oficinas de capacitação, suporte documental e tradução de currículos para o português.

Entre os participantes estava o venezuelano Victor Arce, de 65 anos, que chegou ao Brasil há um ano ao lado da esposa, Morelba Margarida Aquilar, de 64 anos, e da filha da família. Marceneiro de profissão em sua terra natal, ele recorreu à venda de artesanato no país enquanto busca colocação fixa. A vinda ao território brasileiro foi motivada pela necessidade urgente de cuidados médicos para Morelba.

“Esse país é muito bom e encantador, tanto de pessoas quanto de material científico e educativo. Minha esposa tem um problema de saúde e o tratamento venezuelano era muito custoso. E aqui, em dois meses, ela conseguiu atendimento e resolveram o problema”, disse.

Interessado nas orientações sobre negócios próprios, Arce destacou a relevância do acolhimento recebido. “Estou buscando maneiras de empreender, de abrir uma microempresa”, disse Victor. “Aqui se encontra muito apoio ao imigrante, a imigrantes de todos os países do mundo. Essa é uma ideia muito boa e que poucos países têm”, acrescentou.

Desemprego e o desafio do empreendedorismo

O perfil dos participantes reflete um cenário complexo: segundo a líder do Comitê de Inserção de Refugiados e Migrantes do Grupo Mulheres do Brasil, Maria Helena Santuche, 70% das pessoas atendidas na ação não possuíam ocupação formal, e mais da metade tinha o objetivo de criar uma fonte autônoma de renda.

“A maior parte dessas pessoas quer empreender, mas elas não têm muita ideia ainda [em como fazer isso], porque justamente esse é um empreendedorismo por necessidade, não por oportunidade”, explicou.

Para o diretor de Pessoas da Konecta Brasil, Flavio Simonato, a preparação prática é indispensável para superar essas barreiras. “Um dos objetivos principais [da ação] é possibilitar que esses refugiados que estão no nosso país trabalhem ou façam as adequações necessárias da sua documentação e para que estejam com seus currículos preparados e atualizados”, ressaltou.

“Estamos realizando palestras também sobre mercado de trabalho para orientar essas pessoas sobre como nosso mercado de trabalho funciona e como elas vão ter sucesso na busca de emprego e, lógico, trazendo também oportunidades de emprego. Além disso, conseguimos doações e vamos doar cestas básicas e brinquedos para as crianças”, disse.

Barreiras de idioma e revalidação profissional

A maior parte dos inscritos no mutirão veio da Venezuela, do Haiti e da República Democrática do Congo. De acordo com Eliane Franco Figueiredo, cofundadora do Grupo Mulheres do Brasil e líder do Comitê de Inserção de Refugiados e Migrantes, muitos chegam com formação de nível superior, mas esbarram na burocracia.

“A gente tem médicos aqui, por exemplo, que não podem exercer sua profissão aqui [no Brasil] porque a validação de diploma demora muito. Então, [nesse local] estamos fazendo todo esse tipo de ação para a empregabilidade e de capacitação para o trabalho”.

Dados do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (Acnur) apontam que mais de um milhão de refugiados ou indivíduos que demandam proteção internacional residem atualmente no território brasileiro, distribuídos entre mais de 160 países de origem. Além de venezuelanos, cubanos e haitianos, cresce a presença de pessoas vindas de nações em conflito recente, como Síria, Afeganistão, Irã e Palestina, sobretudo em São Paulo.

A associada de Soluções Duradouras do Acnur, Vivian Holzhacker, pontua que, embora o sistema público assegure saúde e educação, a subsistência imediata continua sendo o maior obstáculo.

“O idioma é a primeira barreira para todas essas pessoas porque pouquíssimos países falam português. E, depois, existe uma urgência para trabalhar. Eles não têm uma rede de apoio, não têm moradia, então existem vários desafios. Muitas vezes as pessoas têm diploma de nível superior, mas acabam trabalhando no emprego que aparece, naquilo que elas conseguem [encontrar aqui no Brasil]”.

A obtenção de papéis legais em meio a fugas não planejadas agrava o problema. “A pessoa que sai do seu país com urgência, fugindo de uma perseguição ou de uma guerra, nem sempre tem tempo de se organizar, de organizar todos os seus documentos ou de traduzir esses documentos. Esse também é um grande desafio”, destacou.

Canais permanentes de apoio e capacitação

Para aqueles que não puderam comparecer presencialmente ao evento, o Acnur mantém o portal online Help, plataforma voltada à consulta de serviços sociais, documentação e programas de geração de renda. “Nessa plataforma elas podem fazer uma seleção por estado e município e ver quais são as organizações que podem atendê-la”, explicou Vivian.

A Aliança Brasil Cidadã também mantém atendimento contínuo com capacitações gratuitas ao longo do ano, contemplando temas como inteligência artificial, informática e estética. “Nós temos um Instagram bem robusto e os próprios migrantes refugiados trocam informações por lá”, sugeriu Sidnea Evangelista, vice-presidente da Aliança Brasil Cidadã. “E aqui nós temos cursos abertos o ano todo como de informática, inteligência artificial e manicure. Eles podem se inscrever gratuitamente para fazer esses cursos”.

Interessados também podem solicitar orientação diretamente às equipes responsáveis por meio do e-mail refugiados@grupomulheresdobrasil.org.br ou pelos perfis oficiais do Grupo Mulheres do Brasil e da Konecta Brasil nas redes sociais.

Com informações de Agência Brasil

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